quarta-feira, 14 de maio de 2014

Entre desalinhos

Havia um fiapo. Convivi com isso enquanto o agasalho cabia. A inquietude, contudo, atinge as pessoas. Ataquei o fiapo, puxando distraidamente. Entre linhas, me vi desnudada por mim. Vi o corpo cheio de simples e complexas cicatrizes, tão minhas quanto do mundo que as causou. Quase afogada pelas linhas do moletom, tentei respirar fora de mim. É a busca do sopro da vida, loucura do mundo de normais. Olhei ao redor e todos tão belamente vestidos se afastavam horrorizados com a desalinhada. 
-Aqui não há espaço para você. -Gritavam. 
Entre desalinhos, com o coração exposto, frio e quente, marcado pelo tempo incontável, doce e só. Entre desalinhos, perdida em mim. Em que lugar começariam tantas linhas? Onde terminariam as entrelinhas? Cadê todos os nós? Mas segui. Pegaram tesouras e tentaram cortar as linhas. 
-Você é um perigo! Quer perverter a ordem! Insurgente! - Gritavam então. -Anormal! Antissocial...!
Tentei remedar as linhas; mas, ao ver as tesouras, corri desembalada. Não queria ser arrumadinha. Como poderia permitir que cortassem minhas linhas se, entre elas, eu sou. Mas encontrei outros tantos desalinhados e vi beleza neles. 
Haveria tal beleza em mim? 
Entre desalinhos, aprenderei, com meu sentimento de mim

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